Malangatana. O ‘Crocodilo’ de Matalane

Luis Nhachote*- Novo Journal 7 janeiro 2011. Angola

Eram 3.30 da madrugada desta quarta-feira (5 janeiro), quando de Matosinhos, Portugal, deixou de palpitar para sempre o coração de Malanganta Valente Ngwenha, a mais pujante e representativa figura das artes plásticas moçambicanas.

Afirmou-se na contra- mão do sistema colonial ao querer praticar “a arte dos brancos”. Com o pincel, a sua arma de arremesso, retratou as injustiças do colonialismo, e pelo meio do caminho, o bicho do nacionalismo se instarou no seu coração que agora parou. Pela PIDE, foi preso e julgado por pertencer a uma célula clandestina da Frelimo. Mesmo nas masmorras não largou o pincel. Em liberdade, e com a chegada dos adventos das independências das antigas colonias portuguêsas, a expressão da sua obra conquistou o mundo. Mas quem é este homo-artista que ultrapassou e quebrou barrreias espalhando o seu talento pelo universo?

O ‘Croco dilo’ de Matalane

Malangatana Valente Ngwenya (“crocodilo”, na língua ronga) nasceu em 6 de junho de 1936 em Matalana, periferia de Lourenço Marques (hoje Maputo), capital da então província ultramarina de Moçambique. Foi pastor, agricultor, aprendiz de curandeiro e catador de bolas em um clube de ténis. Foi lá que conheceu o biólogo português Augusto Cabral, que o ajudou nos primeiros passos na arte. Mas seria o arquitecto Pancho Guede o seu “descobridor” que lhe cedeu espaço para pintar a noite na sua garagem. E não ficou por aqui. Todos os meses lhe comprava dois quadros a preços de penchicha. Pouco depois, o rapaz decidiu apresentar o trabalho ao público. Foi um sucesso. “De um ano para o outro [o Malangatana] passou de simples empregado de bar e limpezas num clube de elite moçambicano para um pintor de grande reputação”, recordou Pancho Guedes, surpreendido pela morte do antigo protegido. “Fazia uma pintura que era só dele, não precisando que ninguém lha ensinasse ou interpretasse”, disse Guedes a propósito da morte de Malangatana.

Nomeado “Artista da Paz” pela Unesco, ele ficou famoso no mundo pelos retratos que fez da guerra colonial em Moçambique. Enormes murais de Malangatana decoram vários prédios em Maputo, como, por exemplo, o hall de entrada do Ministério do Interior e as paredes externas do Museu de História Natural. Sua obra é marcada pelas pinceladas fortes, de cores vibrantes, que retrataram os moçambicanos com expressividade e sentimento. Os retratos de rostos sofridos pela opressão colonial e pela guerra de libertação percorreram o mundo. Além de pintar, o artista também fazia esculturas, tapeçarias e usava muitos elementos naturais nas suas obras, como raízes, conchas, sementes e areia.

Foi poeta, actor, dançarino, músico, dinamizador cultural, organizador de festivais, filantropo e até deputado da FRELIMO, partido no poder em Moçambique desde a independência. A morte do ‘Crocodilo’ como gostava de ser chamado pelos mais próximos, apanhou de surpresa os seus colegas, muitos deles que deram os seus passos na sua casa – aonde tinha o atelier– que continuam estupefactos e incrédulos.

O escritor Mia Couto considera que com a morte de Malagantana Moçambique “perdeu uma espécie de embaixador permanente da cultura”. Até a data da sua morte, Malangatana era membro do Conselho de Estado, um colégio criado para aconselhar ao Presidente da República sobre as várias questões da vida do país. Foi-se o ‘Crocodilo’ de pincel, de extirpe rara, cujo solo que o viu nascer, Matalana, onde criou o seu centro cultural, é o lugar que em vida disse querer ser sepultado.

* Jornalista Moçambicano

+ Info: http://taniaadam.wordpress.com/2010/05/30/pintor-ngwenya-malangatana/

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